Ex-BBB’s, atores, mulheres-frutas, apresentadores dominicais, festas mal-organizadas, fake Dj’s... De uns tempos para cá está na moda ser DJ, e a cena eletrônica foi invadida por estas “personalidades”, que muitas vezes tem tirado o espaço de pessoas que trabalham sério pela cultura eletrônica em nosso País.
Muita gente do meio tem se indignado com tais acontecimentos, porém, até então nenhuma ação havia sido tomada para falar sobre o assunto. Com isso nasceu o PORRADJ, o comentadíssimo blog colaborativo que tem deixado muita gente de “cabelo em pé”, mas principalmente, tem satisfeito aquelas pessoas que estavam com tudo isso trancado em suas gargantas! E como em um coral afinadíssimo a cena eletrônica tem aclamado: PORRA DJ!
Entrevistamos Jesus Light (nome fictício por motivos óbvios), o criador da idéia para saber um pouco mais sobre esta iniciativa, e o que ela realmente pode significar para a música eletrônica.
Eletrocena – Como surgiu a idéia de criar seu blog? Foi em um momento de descontentamento com a atual situação da nossa cena eletrônica ou teria seu blog uma conotação mais humorística da coisa?
Jesus Light - Vamos começar desmistificando esta idéia de blog. O PORRA DJ não é um blog. O conceito do PORRA DJ não foi criado por mim, ele é livremente inspirado nos brasileiros “Porra, Felipe!” criado por @pedroleite82 e no “Porra, Mauricio!” criado por Fernando Marés de Souza (@porramauricio). A liberdade de expressão e a crítica humorística fazem parte da idéia central de um tumblr “porra”, o qual, através da colaboração dos seus leitores e a descontextualização, satiriza uma situação, foto, vídeo ou discurso. A descontextualização não deve ser percebida como uma crítica ao todo, e sim, aquela pequena fração da realidade descontextualizada.
Passado a parte onde damos os créditos aos verdadeiros idealizadores da idéia, vamos falar um pouquinho sobre o PORRA DJ. A idéia partiu de mim e mais dois amigos que, infelizmente, não estão mais entre nós. PORRA! Não, eles não morreram, simplesmente se afastaram do blog após o primeiro ou segundo mês de existência e me deixaram como único "moderador" da criança.
A idéia era fazer uma crítica a cena eletrônica de uma maneira diferente. Criar um espaço livre para que as pessoas pudessem comentar sobre situações e personagens e expressar sua opinião sem se preocupar com a seriedade ou a famosa política de "protecionismo" com que a mídia, agências e promotores de evento tratam como comum.
Estávamos descontentes com a atual situação da cena eletrônica? Sem dúvida. O PORRA DJ tem uma conotação mais humorística da coisa? Provavelmente. Mas a principal questão aqui era envolver as pessoas. Todos sempre dizem que a cena eletrônica precisa se unir e abrir diálogo para crescer. Bem, errada ou não, esta foi a nossa forma de unir opiniões de pessoas que trabalham com a música eletrônica no país inteiro para discutir o que tem acontecido.
Como conseqüência, expor e divulgar publicamente o que todos não acham ser correto. Era necessário que alguém desse um passo a frente e falasse algumas coisas que estavam presas nas entranhas de todos os profissionais da eletrônica, como:
- Eu não acho certo pseudo-celebridades "atacando" de DJs e tirando a minha oportunidade de mostrar o meu trabalho.
- Eu não acho certo que tal DJ ganhe um cachê absurdo para utilizar um notebook com um DJ Set pré-progamado.
- Eu não acho certo que um DJ coloque o seu nome em uma música de autoria de outra pessoa.
E é claro, coisas mais light como:
- Eu acho engraçado esta foto que encontrei na Internet.
- Eu acho engraçado este nome de DJ e, na boa, seu slogan é ridículo também!
A chamada "CENA" eletrônica sempre foi tratada com muita seriedade. Os artistas e todos os profissionais tinham que ter um outro ponto de vista sobre a coisa. O ponto de vista que somos todos personagens procurando por atenção e que, às vezes, temos pessoas que falam e expressam opiniões sobre o que fazemos. O PORRA DJ publica estas opiniões para que possamos fazer alguma coisa e crescer como artistas! ENTENDA e leia mais a respeito: http://porradj.tumblr.com/sobre
Eletrocena – O público quer saber, quem é você? O que faz? És um profissional da música eletrônica?
Jesus Light - PORRA, eu sou o Jesus Light, prazer!
Bem, falando mais "sério" agora: Antes de mais nada sou um ser humano, pensante e crítico por natureza. Também faço parte da "classe" dos DJs, sou músico e profissional da música eletrônica. Estou envolvido com a música e, mais especificamente com a eletrônica, há um bom tempo: faço parte ativamente de diversos projetos e coletivos culturais, sou proprietário e label manager de um selo fonográfico, apresento um programa de rádio de transmissão FM sobre música eletrônica, sou um crítico, colecionador de vinis e um amante da música eletrônica em toda sua diversidade de vertentes e gêneros.
Eletrocena – Sabemos que junto com os posts críticos podem surgir retaliações por parte das pessoas citadas em seu blog. Como o PORRADJ lida com situações como estas?
Jesus Light - Sou bastante transparente sobre como funciona o Porra DJ e, embora existam algumas pessoas que não acreditam, eu realmente não tenho nada contra as festas, clubs, artistas, DJs, flyers e fotos postadas no Porra DJ. A idéia é gerar discussões que servem para fomentar um pensamento crítico a respeito das situações descontextualizadas que são colocadas.
Nossa política quanto a retaliações e reclamações é muito simples. Qualquer pessoa que não gostou, não entendeu, se sentiu ofendido ou simplesmente não gostaria de ter sido postado no PORRA DJ pode, a qualquer momento, entrar em contato via site, e-mail, Twitter ou comentário que o post é removido o mais rápido possível.
Eletrocena – Ainda relativo à questão acima, nos conte, alguém já tentou fazer reclamações em vias legais por conta das criticas de seu blog?
Jesus Light - A liberdade de expressão e a opinião gera discussões que, com certeza, às vezes não são bem recebidas por algumas pessoas. Já recebemos muitas ameaças sim, desde processos até ameaças de morte.
Eletrocena – Em sua opinião, qual é hoje o melhor post já apresentado em seu blog ou que tenha gerado mais acessos e polêmica?
Jesus Light - Na minha opinião, eu acho que não existe UM post. O PORRA DJ funciona melhor como uma narrativa, são diversos temas tratados e cada um com seus impactos e diferenças. Acho muito interessante ver a diferença de discurso na hora de comentar sobre um "ex-BBB ou celebridade DJ" e um "DJ Fake", dependendo do personagem as pessoas ficam mais corajosas para dizer o que pensam.
Agora, olhando de um outro ângulo, outra coisa interessante é o "medo". Na prática é um mecanismo de controle, perdi a conta das vezes que ouvi pessoas comentando: "Não faça nada errado, se não vai cair no Porra DJ". Gente, se o Porra DJ não existisse você cometeria crimes como plágio? Acharia normal uma celebridade DJ? Acharia o máximo alguém fingir que está tocando com um notebook? Acho que aqui entra a maior das polêmicas, as pessoas tem que ter limite! Com ou sem o PORRA DJ.
Eletrocena – Qual sua opinião pessoal/profissional sobre a atual realidade da música eletrônica no Brasil? Quais os maiores problemas e quais seriam as soluções em seu ponto de vista?
Jesus Light - Minha opinião pessoal e profissional é que não temos problemas. A cena cultural e musical brasileira ainda é, simplesmente, muito infantil.
Há pouco tempo atrás ainda tínhamos uma ditadura no país e um monopólio da mídia. O brasileiro ainda está se acostumando com a liberdade. Tanto a liberdade de expressão quanto a liberdade musical e cultural.
Alguns podem dizer... PORRA, mas já vai fazer mais de 20 anos que a gente está "livre". Pois é... Mas nos anos 70, enquanto pessoas que moravam em Chicago ou Detroit já estavam iniciando movimentos que mudaram toda história da música eletrônica, nós ouvíamos o que? Roberto Carlos? (Props aqui para o Rio de Janeiro que já criava uma cultura Funk muito organizada!)
Somos jovens e temos que aceitar isso.
A figura do DJ também é novidade no país. Há algumas décadas atrás tínhamos apenas discotecários, já nos anos 90 tínhamos ótimos DJs, porém poucos. Poucos, porque o equipamento era caro e o acesso as músicas era complicadíssimo. (Para quem não sabe, os vinis eram importados e extremamente difíceis de serem comprados, além de caros)
Estamos atualmente vivendo um ótimo momento. A revolução digital, a estabilidade econômica, a liberdade! E isso, para um país "jovem" sem referências se torna uma overdose de informação! A solução é o tempo. Precisamos de tempo para entender mais de 40-50 anos de cultura eletrônica, nos aprimorar nas técnicas que os guetos de Londres já praticam faz anos e, finalmente, amadurecer culturalmente.
O PORRA DJ está aqui para ajudar-nos a amadurecer. Muitos dirão: ah, mas o Porra DJ é infantil nas suas críticas! Olha, eu também acho que sim. MAS, já tive colunas e sites mais sérios a respeito da cena eletrônica e descobri que, no final, não adianta sermos intelectuais. Nós ainda somos infantis e temos que crescer com nossos erros.
Portanto, tenham calma. A era do "Brasil" vai chegar. Aliás, vai chegar não, já está chegando, exemplo disso são os ótimos DJs e produtores brasileiros que fazem sucesso pelo mundo e que não tenho vergonha de me orgulhar: Parabéns DJ Marky, parabéns Patife, parabéns Zegon, parabéns DJ Marlboro, parabéns Gui Boratto e, se me esqueci de alguém, me desculpe, tenho certeza que muitos outros estão surgindo e não param de surgir.
Eletrocena – Para finalizar deixe um recado para nossos leitores... Se quiser pode deixar também um recado para os fakes de plantão!
Jesus Light - Sei que muitos aguardam uma resposta fervorosa a esta pergunta, algo do tipo "PORRA, estamos de olho!" ou "PORRA DJ! “Caça as pseudo-celebridades que só querem atacar de DJ” Tome cuidado que vamos descobrir toda farsa! Mas na realidade, queria deixar como recado para que todos os DJs reflitam sobre o que representa ser DJ. Quando você assume a posição de DJ, antes de mais nada, você se torna um artista. Um artista é um personagem, uma imagem pública em evidência, que quer se expressar sua arte, neste caso, através da música.
Uma das maiores qualidades de um DJ, em minha opinião, não é a técnica, a qualidade de suas músicas, a criatividade ou até mesmo a sua aptidão musical. A maior qualidade que um DJ deve ter é a SEGURANÇA. Um artista deve estar seguro e confiante sobre o que faz. Assim se garante sua integridade e evolui sua carreira.
Críticas vão surgir, assim como fãs e a fama. Existe uma necessidade de saber lidar com estas críticas para que seja possível o seu crescimento pessoal e profissional. Aos prepotentes que acham que sair no PORRA DJ significa um "desrespeito" à cena eletrônica e a sua carreira tudo que tenho a dizer é: procurem um psicólogo. Ser artista e estar em evidência é complicado e, um dia, você terá que lidar com isso de uma maneira mais inteligente do que censurar e fechar a cara para a mídia.
Fechando a entrevista, deixo uma frase que nem todos vão entender, mas que fará toda diferença para alguns:
"Existem momentos na vida onde a questão de saber se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir."
Michel Foucault
Abraços,
Jesus Light
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